Doses de febre.

A percepção em tabletes.

Sobre dar e receber

Você me deu o olhar, eu te dei o carinho.
Você me deu silêncio e eu te dei compreenssão.
Você me deu distância e me pediu desprezo.
Eu te deu desprezo e você queria amor.
Eu, finalmente, te dei amor e você deu o amor que é seu.
Hoje estou sozinho desprezando o amor que nunca foi meu.

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Indigna questão

Certa vez, ao voltar pela manhã de um dos meus plantões da madrugada, vi uma mulher na rua. Catadora de papel. Seu olhar cansado era incapaz de esconder a dignidade que exalava de sua imagem. Carregava um carrinho abarrotado de papelão. Tinha as unhas pintadas, um esmalte gasto, mas que mostrava muito mais que uma vontade estética: mostrava que, apesar de nossos contínuos esforços para reconhecer isso, ela é um ser humano.

Você sabe o que é um ser humano?

Questão difícil de responder. Vamos por da seguinte forma: O que significa SER humano? Características adquiridas? Compartilhadas? Expressas? Racionalidade? Ignorância?

Não importa. Aquela mulher tinha, com suas unhas pintadas, uma dignidade incomum. Você olhava para ela e ela dizia ser humana como quem lhe esbofeteia  a face. Um estupro na sua arrogância.

Comemos aquilo que somos.

Ela seguia com seu carrinho. Ignorou, inclusive, um olhar de desdém de uma menina. Menina com maquiagem borrada e descalça (os saltos estavam em sua mão), cansada da noite que passou e visivelmente ‘alta’. Seu desdém foi uma reação. A dignidade zomba da miséria que escolhemos para nós mesmos.